Ficção e realidade em Jane Austen

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Jane Austen realmente queria nos dar conselhos? Romances não são apenas entretenimento? E, de qualquer forma, todo o cenário de conselhos sobre relacionamentos não está um pouco abaixo da dignidade de Jane Austen?

Por um lado, temos a elegância de Jane Austen, as grandes aspirações de suas personagens, o impressionante autoconhecimento delas e sua competência em relação aos homens. Por outro, palestras motivacionais sobre encontrar o homem certo, dicas para as perdidas no amor e conselhos sobre namoros. Ela não está em um nível totalmente diferente? Afinal, um dos piores momentos na carreira de Bridget Jones – quando o abismo imenso entre a vida dela e a de Elizabeth Bennet fica claro como o dia – é a conversa com Mark Darcy em que ela solta que a religião dela é: autoajuda. A indústria dos livros de conselho não é uma parte e uma parcela de tudo o que está abaixo do padrão em nossas vidas do século XXI?

Bem, sim e não. É claro que os romances de Jane Austen estão em uma categoria completamente diferente de Mulheres que Amam Demais e Ele Simplesmente Não Está A Fim de Você. Mas as questões com as quais esses livros lidam não estão abaixo da dignidade de Jane Austen. Na verdade, ela estava muito interessada exatamente nos mesmos problemas. Apenas as soluções dela são muito mais elevadas. Jane Austen absolutamente não considerava estar acima de oferecer modelos e conselhos para a vida diária das mulheres, suas escolhas e, especialmente, para suas cortes. Ocasionalmente, ela poderia até mesmo dar conselhos do tipo “o que vestir”, que é vagamente semelhante ao tipo de coisa que lemos em nossas revistas femininas.

Jane Austen não está acima de nenhuma de nossas preocupações, por mais superficiais que pareçam. Agora, sua conhecida mais velha que chamou a jovem Jane de “a mais bonita, tola e afetada borboleta em busca de marido”, obviamente, não percebeu alguma coisa; Jane Austen era sempre um pouco mais complicada do que isso. Mas, enquanto garota, ela poderia ter sido tola em relação a jovens homens, pois ela queria se casar, e foi escrever ficção que fala exatamente dessas coisas. Jane Austen estava interessada em tudo que nos interessa, desde roupas, homens, conselhos para se recuperar da depressão até estratégias para lidar com sua irmã mais velha narcisista. E ela estava muito mais pronta do que autores “literários” modernos para entrar nesses assuntos e dar conselhos sobre eles. Ela nunca é uma pesada moralista vitoriana. Mas não há dúvidas de que Jane Austen considerava que seu trabalho como romancista era esclarecer, tanto quanto entreter. Aqui está a famosa definição dela para o tipo de livro que escrevia:

“‘Oh! É só um romance!’ responde a jovem dama, enquanto põe de lado seu livro com uma indiferença afetada, ou vergonha momentânea.’É apenas Cecília, ou Camila ou Belinda’; ou, em resumo, apenas um trabalho em que os maiores poderes da mente são demonstrados, no qual o mais profundo conhecimento da natureza humana, a mais feliz definição de suas variedades, as mais vivazes demonstrações de inteligência e humor são oferecidas para o mundo em linguagem cuidadosamente escolhida.”

Trecho do livro “A Fórmula do Amor: Segredos de Jane Austen Para os Relacionamentos”, escrito por Elizabeth Kantor, que pode ser adquirido neste link da Livraria Cultura.

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