Literatura que melhora a vida

Fórmula 4

Colocamos Jane Austen e conselhos amorosos em categorias diferentes, em parte, porque nós, modernos, pensamos em literatura como “arte”. E assumimos que “arte” não tem nada a ver com conselhos. Presumimos que apenas o pior tipo de literatura diz às pessoas como viver: romances moralistas vitorianos, as lúgubres produções do realismo socialista soviético, dramas televisivos com “uma mensagem” sobre violência doméstica ou dirigir embriagado.

No entanto, no tempo de Jane Austen, “arte pela arte” não era sequer um vislumbre na mente de Edgar Allan Poe. Naquela época, não era apenas a ralé da literatura que era “didática”. Mesmo a grande literatura artística deveria ensinar uma lição. Ela deveria melhorar a vida dos leitores. E não apenas abrindo suas mentes (seja para o “melhor do que já foi pensado e dito” ou para o último desafio “transgressor” à moral burguesa). No entanto, mostrando a eles algo sobre como se viver.

Se você pensar um pouco, os escritores do tempo de Jane Austen eram mais realistas sobre como a ficção efetivamente influencia os leitores. O fato é que não podemos evitar de aprender com nosso entretenimento.

Imitamos o que lemos – ou com o que vemos nas telas. Caso contrário, publicitários não pagariam por “inserção de produto”. Os escritores têm um poder real de nos fazer desejar ser parte desse mundo que nos mostram. Eles não deveriam admitir que têm esse poder? E já que eles vão, inevitavelmente, nos influenciar, para o bem ou para o mal, por que não tentar fazer isso para melhor? Jane Austen certamente fez isso.

Os romances dela combinam três coisas diferentes que estamos acostumados a colocar em três categorias separadas: 1) ficção como arte ou entretenimento, 2) conselhos práticos e 3) a exploração – quase uma investigação científica – das bases desses conselhos sobre o que motiva os seres humanos e o que vai realmente fazê-los felizes. Essa terceira categoria é do que ela está falando quando ela diz que romances oferecem “o conhecimento mais profundo da natureza humana”.

A arte deveria ser uma imitação da natureza. Mas a vida também imita a arte. E Jane Austen era fascinada por isso. Ela estava muito consciente do poder que um escritor pode ter sobre a vida de seus leitores. Uma das coisas que seu “conhecimento mais profundo da natureza humana” dizia a ela é que nós temos uma profunda ânsia de imitar as histórias de que gostamos. Seres humanos aprendem pela imitação. Jane Austen era fascinada por esse fenômeno e, especialmente, sobre como os livros fazem os leitores quererem ser como as pessoas dentro deles. Sua própria escrita era cheia de personagens que caminham pela vida copiando os personagens dos livros que eles leem.

Não há dúvidas de que Jane Austen considerava que seu trabalho como romancista era esclarecer, tanto quanto entreter. Aqui está a famosa definição dela para o tipo de livro que escrevia:

“’Oh! É só um romance!’ responde a jovem dama, enquanto põe de lado seu livro com uma indiferença afetada, ou vergonha momentânea.’É apenas Cecília, ou Camila ou Belinda’; ou, em resumo, apenas um trabalho em que os maiores poderes da mente são demonstrados, no qual o mais profundo conhecimento da natureza humana, a mais feliz definição de suas variedades, as mais vivazes demonstrações de inteligência e humor são oferecidas para o mundo em linguagem cuidadosamente escolhida.”

 

Trecho de “A Fórmula do Amor: Segredos de Jane Austen para os Relacionamentos”, de Elizabeth Kantor, que pode ser encomendado neste link: http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=42144156&sid=77416010915717529676637260

Advertisements