Não se acomode com menos do que o amor verdadeiro

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Jane Austen não deixa que suas heroínas se acomodem com algo menos do que o amor verdadeiro. A “forte estima e calorosa amizade” de Marianne pelo Coronel Brandon – uma melhora em relação ao conselho de Gottlieb para olharmos “a categoria dos velhos, gordos e carecas (que eles todos se tornam de qualquer forma)” – é o mínimo absoluto que ela permite que suas heroínas levem ao casamento. Jane Austen nos deixa com sentimentos confusos em relação a esse casamento e com sentimentos ruins perfeitamente claros em relação à escolha de Charlotte Lucas, a personagem de Jane Austen que se acomoda com o Sr. Collins “sem estimar muito os homens ou o matrimônio”. Jane Austen é solidamente contra “sacrificar todos os sentimentos mais nobres por vantagens mundanas”.

Não é que não faça sentido se casar com um homem que tenha menos cabelo (ou uma barriga maior) do que a média. Você pode se casar com um homem gordo ou careca, mas não se isso é o que você mais nota nele. (Quando minha prima estava se perguntando se realmente queria casar com um homem que estava perdendo cabelo, nossa avó disse que ela não deveria fazê-lo, “seu avô era careca quando eu casei com ele, e eu nem reparei!” se minha prima precisava se perguntar isso, então a resposta era não – obviamente, ela não estava animada o suficiente com ele por outras razões, ou ela nem estaria pensando em sua careca). O amor ao estilo de Jane Austen pode não lhe acertar com a força de um tsunami Romântico. No início, ele pode ser tão hesitante quanto Elizabeth em “nunca ela havia sentido tão honestamente que poderia tê-lo amado”. Mas tem que ser amor, não cálculo.

Sabemos o que Jane Austen pensa dos casamentos sem amor não só por seus romances, mas também por suas próprias escolhas e seus conselhos na vida real. Ela escreveu para sua sobrinha aconselhando-a a respeito de um pedido de casamento, “[…] rogo para não se comprometa mais e não considerar aceitá-lo a não ser que realmente goste dele. Qualquer coisa deve ser preferível e suportável a um casamento sem afeto. E se suas deficiências de maneiras e etc. lhe tocam mais do que suas boas qualidades, se você continua pensando seriamente nelas, desista dele de uma vez”. E a própria Jane Austen uma vez pensou que poderia se casar sem amor, mas mudou de ideia rapidamente.

A própria Austen não poderia – e suas heroínas nunca o fazem – se casar sem o que ela chama de “afeto desinteressado”. Por quê? É muito simples. Se “casar sem afeto” é “cruel”. Sim, isso mesmo. Cruel. Ou seja, moralmente errado. Sem falar em “lamentável” e “imperdoável”. É difícil pensar em algo que Jane Austen faça suas heroínas condenarem com adjetivos fortes como esses – que Fanny Price usa quando fala do casamento sem amor. E não é apenas Fanny, a mais moral das heroínas de Jane Austen, que vê o casamento na ausência de afeto como uma questão de certo e errado. Quando Jane Bennet tenta defender a decisão de Charlotte Lucas de se casar com o Sr. Collins, Elizabeth responde, “você não deve, para salvar um indivíduo, mudar os princípios de sentido e integridade nem se empenhar em persuadir a si mesma, ou a mim, que egoísmo é prudência, e insensibilidade ao perigo, segurança de felicidade”. Anne Elliot pensa exatamente o mesmo: “Ao casar com um homem que me é indiferente, eu estaria correndo todos os riscos e violando todos os deveres”.

Por que Jane Austen condena o casamento sem amor em termos morais tão fortes? De maneira interessante, pela mesma razão que Megan McArdlen, na Atlantic, apontou como “a crítica óbvia” da tese de Gottlieb, “na verdade, há outro ser humano envolvido nisso”. “Se acomodar” não é justo. É uma violação da integridade porque significa ser desonesto a respeito das coisas mais íntimas com a pessoa que deveria ser mais próxima de você. Ele não ia querer se casar com você se não acreditasse honestamente que você gosta dele. Então, se você está apenas se acomodando, ele está sendo “enganado”, como Jane Austen chama o que Maria Bertram faz com o Sr. Rushworth. Se acomodar é uma forma de se vender – se não por dinheiro, por segurança, ou a chance de ter uma família. É uma forma de se agarrar à felicidade ofensiva à “delicadeza de espírito” que as heroínas de Jane Austen cultivam. Alcançar a dignidade de uma Anne Elliot depende do respeito em relação à autonomia do homem com quem você está envolvida, não de usá-lo cinicamente para seus próprios fins. Agarrar-se dessa forma não vai lhe fazer feliz, de nenhuma forma. O que acontece quando um homem que você pode amar aparece, depois que você já se comprometeu com um com quem não pôde? Como Jane Austen alertou sua sobrinha, “nada pode se comparar à miséria de estar presa sem amor – ligada a um e preferindo outro; isso é uma punição que você não merece”.

Trecho extraído de “A Fórmula do Amor – Segredos de Jane Austen para os Relacionamentos“, por Elizabeth Kantor. Adquira o livro na Livraria Cultura.

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