Amar está fora do nosso alcance?

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Achar o amor feliz à maneira de Jane Austen é algo fora de nosso alcance? Como raios você vai sinalizar para um cara que está interessada nele – e ainda por cima mantê-lo interessado em você – enquanto mantém distância? Afinal, a própria Jane Austen nunca se casou. Por quê? Os padrões dela eram altos demais?

Os conselhos de Susan Walsh em “Hooking up Smart” incluem essa crítica aos escritores de Sex and the City e à abordagem Ele Simplesmente Não Está A Fim de Você que, como vemos, coincide com Jane Austen de uma forma surpreendente: “por outro lado, essa abordagem pode levá-la direto a um deserto de relacionamentos. Você não perde tempo com idiotas, mas onde estão os caras legais que querem namorar [com você]? Eles sabem que você não vai sair com qualquer um aleatoriamente, então, você se vê sendo ignorada em uma festa. Você pode não estar sendo dispensada, mas a vida com certeza fica chata quando não há intrigas ou drama com homens”.

Ok, primeiro de tudo, se o que você está procurando com homens é drama e intriga e não amor e felicidade, por favor, volte e leia os Capítulos 1 a 3. Ainda assim, “onde estão os caras legais?” é uma questão totalmente válida.

Jane Austen, como nós, vivia em uma época e fazia parte de uma fatia casamento. E por algumas das mesmas razões que hoje em dia. As mulheres tendem a querer se casar “para cima”. Achamos os homens atraentes se eles forem mais espertos e bem-sucedidos do que nós e competentes em coisas que não entendemos. E não, não é porque somos todas mercenárias sem coração procurando uma fortuna fácil. Uma mulher que vai confiar em um homem a longo prazo precisa poder confiar e contar com ele. Na verdade, quanto mais inteligentes e assertivas nós mesmas somos, mais importante o respeito por um homem se torna para nossa felicidade – e mais difícil será encontrar um homem que inspire isso. O Sr. Bennet diz a Elizabeth, a mais inteligente das heroínas de Jane Austen, “conheço sua disposição, Lizzy. Sei que você não poderia ser feliz, nem respeitável, a menos que realmente estimasse seu marido; a menos que olhasse para ele como um superior. Seus talentos vigorosos a colocariam em grande perigo em um casamento desigual”. Então, se você está no topo da cadeia – como as nobres inglesas estavam no século XVIII e nós, mulheres educadas, liberadas e bem–sucedidas, estamos hoje – boas possibilidades vão parecer raras.

Porém, além de estar competindo pela nata dos homens, também estamos sofrendo com algumas falhas nos arranjos sociais modernos. É aí que as heroínas de Jane Austen têm uma vantagem imensa sobre nós. Quaisquer que sejam suas dificuldades, pelo menos, elas contam com o benefício de um cenário social deliberadamente organizado para por mulheres em contato com homens interessados sem colocar uma enorme pressão sobre elas para chegar perto e rápido demais.

Compare a forma como conhecemos os homens com as oportunidades delas. A típica situação social na qual as heroínas de Jane Austen interagem com heróis em potencial são os bailes, como aquele em Orgulho e Preconceito, quando Elizabeth vê Darcy pela primeira vez. Jane Austen viveu no auge do período em que “bailes” – bailes públicos mensais, tipicamente em uma hospedaria da cidade, que atraíam famílias e homens solteiros de toda a localidade para dançar durante o inverno – aconteciam “na maior parte dos lugares”.

Entretenimento desse tipo era algo novo, ao menos se olhamos com perspectiva histórica. Samuel Richardson, o escritor favorito de Jane Austen, fez o papel de um velho ranzinza sobre esse assunto em uma carta de 1751 para a Rambler, reclamando de bailes e outras inovações que surgiram desde sua juventude, quando, afirma, “as jovens damas se contentavam em se encontrar ocupadas por afazeres domésticos; para elas, tumultos, bandas, bailes, reuniões e tais mercados para mulheres não eram conhecidos”. Richardson explica o bom e velho método de corte que dominava antes dos bailes e outras inovações sociais surgidas para facilitar verdadeiros (oh!) encontros e conversas entre jovens homens e mulheres.

Antes dos bailes, Richardson afirma, os homens iam à igreja, “praticamente o único lugar onde mulheres solteiras eram vistas por estranhos”. Uma jovem na igreja não falaria, ou mesmo olharia, para os homens lá, “seus olhos eram dela própria e seus ouvidos, do pregador. As mulheres são sempre mais observadas quando cuidam de observar menos, ou de se colocar para observação. O olho de um amante respeitoso prefere receber confiança de um olhar desviado de sua bela do que se ver obrigado a desviar”.

Ao se interessar por uma mulher que viu na igreja, um jovem perguntaria sobre sua “excelência doméstica”. Se ele descobrisse que ela provavelmente seria uma boa dona de casa, ele teria “sua escolha confirmada” e, então, faria com que seus amigos o propusessem aos pais dela, que, se o aprovassem, diriam a ela que ele estava interessado. Essa novidade, provavelmente, não seria uma surpresa para ela, Richardson explica; ela teria notado que ele a olhava na igreja. Se ela gostasse dele, então ela obedientemente diria a seus pais que estava pronta para conhecer a escolha aprovada por eles.

Como você pode ver, bailes e os outros eventos sociais dos quais Richardson estava reclamando eram parte do movimento para afastar o casamento arranjado pelos pais e ir na direção da liberdade para as mulheres fazerem suas próprias escolhas. As coisas estavam caminhando para que os relacionamentos românticos se baseassem em um conhecimento mais íntimo da outra pessoa. Mas ainda existiam regras especiais para essas ocasiões – um conjunto daquelas regras arcanas que as heroínas de Jane Austen seguem e que Marianne Dashwood ignora para seu próprio risco. Você permitia a cada parceiro apenas duas danças e o intervalo entre elas, então, separava dele e (esperava-se que tendo sido convidada por outro) passava as próximas duas danças com outro homem. Dançar mais do que duas vezes seguidas – ou por mais que dois pares de danças em toda a noite – com o mesmo parceiro era uma quebra do decoro porque significava que você estava mostrando “uma particularidade perigosa” – favorecendo um homem.
Essas danças, e as regras que as acompanhavam, eram o cenário perfeito para um tipo de interação entre homens e mulheres que é muito difícil de se encontrar hoje em dia. Por um lado, bailes eram, de alguma forma, os “mercados para as mulheres” que Richardson os acusava de ser. Todos os envolvidos sabiam que todos estavam “procurando”. Então, você evitava toda a estranheza – e as oportunidades perdidas – que ocorre quando você conhece caras no trabalho ou na vizinhança, onde é difícil saber quem está disponível e quais são os interesses deles (e onde é difícil deixar claro seu próprio interesse sem se arriscar a um enorme constrangimento). Por outro lado, nenhum homem esperava que você fosse para casa com ele depois de um baile. Se um homem gostava de você, ele teria que continuar lhe dando atenção mais tarde e ir lhe conhecendo devagar, com o tempo. As regras diminuíam a velocidade do progresso de um relacionamento até o ponto em que os sentimentos dele poderiam alcançar os seus, antes que você se comprometesse.

 

Trecho extraído de “A Fórmula do Amor: Segredos de Jane Austen sobre os Relacionamentos”, por Elizabeth Kantor. Adquira o livro neste link da Livraria Cultura: http://www.livrariacultura.com.br/scripts/resenha/resenha.asp?nitem=42144156&sid=77416010915717529676637260

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